domingo, 28 de março de 2010

De quando o Fórum virou um teatro

Na madrugada do último sábado (27), o juiz Maurício Fossen divulgou a sentença do casal Nardoni : Alexandre deverá cumprir 31 anos, 1 mês e 10 dias de reclusão e Anna Carolina Jatobá foi condenada a 26 anos e 8 meses de reclusão. Ao mesmo tempo em que o juiz lia a sentença, cerca de 200 pessoas aguardavam a notícia da condenação do lado de fora do Fórum de Santana, na Zona Norte da capital paulista.

Durante os 5 dias de julgamento, pessoas e mais pessoas não paravam de chegar ao local. De estudantes de Direito a atendentes de telemarketing, tudo e todos em frente ao Fórum pedindo a condenação do casal Nardoni, acusado de jogar Isabella - filha de Alexandre e enteada de Anna Carolina - pela janela do apartamento. E desde então o Brasil parou...

Às vezes me pergunto como aqueles que passaram quase uma semana gritando e clamando por justiça ganham o famoso “pão de cada dia”. Oras, em quase nenhum trabalho, em nenhuma profissão, um funcionário pode simplesmente sair durante todo esse tempo com a simples justificativa de “assistir ao julgamento do pai e da madrasta de Isabella”. Apesar da grandiosidade do caso, nem no julgamento de Suzane Von Richthofen a comoção pública foi tão intensa. Faixas, vigílias, orações, gritos de ordem e tentativas de agressão foram comuns em frente ao Fórum


O que leva as pessoas a ficarem plantadas mais de 15 horas embaixo de chuva em uma fila imensa para entrar no Fórum e ouvir o casal Nardoni falar? É compreensível que um estudante de Direito faça isso. Poucos casos no Brasil são tão importantes quanto esse. Ouvi de muitos futuros advogados que esse julgamento vale como anos de aulas. Muito provável. Mas e os metalúrgicos, secretárias, donas de casa, atendentes de telemarketing e outros profissionais que fizeram plantão 24 horas no local? Talvez levem uma vida tranquila e não tenham nenhum problema familiar para resolver. Quem sabe suas contas bancárias estejam recheadas, suas crediários e cartões de créditos pagos e suas despensas abarrotadas. Ponto para eles e azar o meu.

Certamente milhares de pessoas – como eu – adorariam estar no julgamento e ouvir palavra por palavra do que a promotoria, a defesa, as testemunhas e os réus disseram. Como amante do Direito creio que todo o teatro ocorrido dentro do Fórum foi interessantíssimo, mas ainda assim não poderia jogar tudo para o alto e ir ao local soltar rojões e ficar dando socos e chutes no camburão em que o casal estava.

O cúmulo do absurdo foi chutarem o pobre advogado de defesa. Segundo a Constituição todos, independente do que formos acusados, temos direito à defesa. Por que negar isso aos Nardoni? E ao contrário de muitos que estavam ali, o advogado estava sim trabalhando e conquistando seu “pão de cada dia”. Talvez os umbigos de todos precisem de mais atenção, já que é mais fácil jogar todas as pedras em quem virmos pela frente. Três palavras farão com que eu sempre me recorde desse julgamento: comoção pública e hipocrisia.



Créditos da foto: http://colunas.g1.com.br/aovivo/


Revista Sete Fios

Por Ana Carolina Athanásio

quinta-feira, 25 de março de 2010

O guardarroupa do poder

No imaginário popular, as rainhas e princesas sempre foram símbolos de beleza e elegância. Basta observar os contos de fada: elas podiam até ser más, como a madrasta da Branca de Neve, mas feias e mal vestidas jamais.

Essa associação entre poder e aparência continua. É claro que os tempos são outros: as relações políticas, as mulheres e os vestidos mudaram bastante.

As maçãs envenenadas, por exemplo, já deixaram de ser usadas há um bom tempo. Contra inimigos políticos, os dossiês pagos são (ou deveriam ser) mais discretos e eficientes. As mulheres ganharam importância: na maioria dos países, elas não precisam mais esperar os maridos morrerem para ocupar cargos de poder. No âmbito fashion, as mangas bufantes e os sapatinhos de cristais – vedetes dos bailes de outrora – estão um pouco démodé.

Hoje, os tailleurs da Chanel fazem muito mais sucesso. Que o diga Carla Bruni. A senhora Sarkozy é exemplo de elegância, embora, recentemente, tenha cometido alguns deslizes ao exagerar no botox e economizar no sutiã. A rainha Rania, da Jordânia, é outro bom exemplo. Suas roupas, sua beleza e até seu nome exalam realeza e elegância.

Como, neste ano, o Brasil terá duas candidatas à presidência, a Sete Fios achou que esse era um bom momento para colocar em discussão a versão tropical 2010 do triângulo mulher-poder-moda.

Vale lembrar que o guardarroupa de uma rainha, princesa, primeira-dama ou presidenta não precisa necessariamente refletir as passarelas de Paris ou as vitrines da Rodeo Drive e da Rive Gauche. Para ser elegante, em primeiro lugar, é preciso ser coerente. A roupa, o cabelo e até as expressões faciais têm que estar em sintonia com sua imagem política.


Nesse aspecto, os figurinistas das animações da Disney eram mestres. O alfaiate da madrasta da Branca de Neve colocou toda altivez da personagem naquela gola branca e no vestido roxo e preto. O mistério ficou por conta da capa, dos cabelos escondidos e da maquiagem carregada. Em A Bela e a Fera, a coerência também foi total. O vestido amarelo reluzente de Bela lembra riqueza/ouro e posiciona a personagem no seu novo lugar no mundo - a realeza. Já os cabelos semi-presos lhe dão um ar jovem/doce e remetem ao passado camponês.

E as candidatas brasileiras? Será que elas seguem esse princípio de moda coerente à imagem? Dilma Rousseff não era (e continua a não ser) símbolo de elegância. Os marketeiros têm a díficil missão de costurar a fama de séria e trabalhadora da ministra a uma aparência simpática e humana. Não, não é fácil. E nem o investimento foi pequeno. O novo penteado e as plásticas para esconder as rugas têm o objetivo expresso de convencer o eleitor de que Dilma pode ser tão carismática quanto o atual presidente. E a imagem da candidata ainda tem que deixar transparecer uma figura feminina forte, resoluta e capaz de enfrentar de igual para igual os tubarões de Brasília. Não é tarefa para qualquer fada madrinha, mas, por enquanto, os esforços não foram em vão e Dilma vem ganhando forças nas pesquisas. Resta saber se o eleitor será capaz de identificar tantas e tão diversas qualidades no novo look que a ministra anda desfilando por aí.

Já Marina Silva abusa dos vestidos longos, xales e coques circundados por tranças. Todos hão de concordar que a combinação não é o último grito da moda outono-inverno 2010, mas vale lembrar que Marina nunca teve a pretensão de ser uma it girl. Em seu perfil, publicado na piauí de janeiro, a senadora se define da seguinte forma: "Eu faço tudo com muita discrição e cuidado. Não sou do tipo que vai produzir frases de efeito ou falar coisas bombásticas". Portanto, no quesito coerência comportamento-imagem, Marina leva nota dez. Nada mais discreto e pouco bombástico do que saias longas, tranças e xales.

E vocês, o que acham? Nossas presidenciáveis têm potencial para entrar no seleto grupo de princesas da Disney?

Fotos: Reprodução

Mariane Domingos e Tainara Machado

Revista Sete Fios

terça-feira, 23 de março de 2010

Percy Jackson e a plantação de morangos




Desde que a história do semideus Percy Jackson figurou na lista dos livros mais vendidos do jornal The New York Times e foi adaptada para o cinema, alguns críticos começaram a espalhar que nascia ali um personagem com o potencial de fazer tanto – ou mais – sucesso que o bruxo da saga Harry Potter. A constatação foi motivada por supostas semelhanças entre as histórias de Rick Riordan e J. K. Rowling. Assim como Harry Potter, Percy Jackson descobre quando criança que tem superpoderes, vai estudar em uma escola especial e passa por diversas aventuras eletrizantes ao lado de dois grandes amigos. Até aí, o enredo é parecido. Mas a magia de Harry Potter é muito mais contagiante do que a mitologia “moderninha” de Percy Jackson e sua trupe. Enquanto a britânica J. K. Rowling constrói um mundo mágico onde qualquer um gostaria de viver, o norte-americano Rick Riordan estraga a mitologia grega para dar vida a um personagem sem profundidade que não convence como herói.

Apesar de a mitologia ser considerada um relato fabuloso, o contraditório na “Ilíada” de Homero, por exemplo, é aceitável ao olhos do leitor. Mesmo sabendo que tudo aquilo é irreal, suspendemos nossa descrença e embarcamos naquela literatura fantástica. No primeiro livro de Percy Jackson, “O ladrão de raios”, isso não acontece. Há passagens sofríveis, como a explicação para o Monte Olimpo “pairar” sobre os EUA – mais precisamente sobre o Empire State Building. Segundo o livro, os deuses se deslocariam de país para país de acordo com o poder de uma nação na geopolítica mundial. O texto revela: da Grécia, arrumaram as malas e foram para Roma, depois pegaram suas trouxas e se mudaram para a Alemanha, para a França, para a Espanha e agora, após trazer o caminhão de mudança para o continente americano, habitam o país de Obama. Parece piada, né?

A imaginação fértil – e nada verossímil de Rick Riordan – continua na passagem em que ele apresenta o chefe do Acampamento Meio-Sangue, onde vive e estuda Percy Jackson. Na Hogwarts do livro de Riordan, não existe um bruxo poderoso e inteligente como Alvo Dumbledore, mas Dionísio, o deus do vinho, que garante o sustento da moçada que mora no local plantando morangos – isso mesmo, morangos! – que são exportados para Nova Iorque e para o Monte Olimpo. Eu nunca vi um deus precisar plantar morangos para sobreviver, mas tudo bem... Aliás, já que precisam plantar alguma coisa para garantir o pão de cada dia, por que não plantam soja? A economia brasileira mostra que é um bom caminho a ser seguido. Há uma outra passagem de “O ladrão de raios” que precisa ser destacada: o livro mostra que o resultado do cruzamento entre um deus e um humano produz seres disléxicos e com déficit de atenção – o problema atormenta a vida do coitado do Percy Jackson desde pequeno. Essa é a explicação científica para a dislexia e para o déficit de atenção mais surreal que eu já vi. É por causa de pontos como esse que desisti de ler a saga completa de Percy Jackson. A história do primeiro livro de Rick Riordan tem seu valor enquanto entretenimento, mas está a milhas de distância da qualidade narrativa de Harry Potter. Para quem duvidar disso, peço que, por favor, leia com atenção os livros de J. K. Rowling e faça a comparação. Lá, com certeza, os bruxos não plantam morangos.

Por Eliseu Barreira Junior
Imagem Montagem sobre foto de divulgação

segunda-feira, 22 de março de 2010

Lady Gagarização

É trash, mas é de coração


A Lady Gaga tá em alta. Sério. Em uma semana foi lançado um clipe dela com a Beyonce, saiu a notícia que seu ex-namorado está processando-a e sua versão brasileira mini virou queridinha dos twitteiros daqui.


O clipe de Gaga do Beyonce, Telephone, segue o estilo puro glamour e histórias de cinema. Mas o que tornou o lançamento do clipe o xuxuzinho da semana (do mês!) foram as várias versões feitas em tempo record! Vamos à coletânea de delícias:


O oficial inspirador. A loira emprestou seu guarda roupa para a amiga morenona e as duas saíram ahazando de salto alto por aí.



Pegou as referências a Michael Jackson, heim, heim?


Aí, os homens, invejosos das curvas, das roupas e da coreografia das dus resolveram se soltar. Esse dois são profissas, gravam várias paródias. Rola até um parto de telefone.



Esse outro até depilou as pernocas para melhor interpretar a loira. Olhem no 1min19seg e vejam se só eu que imaginei por um segundo que aquilo não era um telefone...



Numa versão mais light, ela ataca no carão, no gogó e no piano. mais romantizado. Reparem que ela vai se soltando, olhando para a câmera mais para o final do vídeo.





Mas aí vem a cerejinha do bolo. A versão mais querida, a mais famosa, a mais glamourosa. A letra original é... gênio! Ximbica e Nany People!!




"Tô vendo a cê-e-tê!" Apaixonei.

Por Carla Peralva

Revista Sete Fios

domingo, 14 de março de 2010

Atraso, desrespeito e Rock and Roll

Guns N’ Roses no Brasil. Fui ao show com o ânimo de um adolescente (apesar da minha fase de pendurar pôsteres do Axl Rose na parede do quarto já ter passado faz muito tempo). Cheguei ao Palestra Itália às 14 horas, sem fazer a menor ideia do que me esperaria na tal “pista comum”. As primeiras 2 horas e meia de fila foram tranqüilas. Você faz amizades, um belo clima de confraternização.

16h:30, portões abertos. Correria tradicional que só quem já foi em shows em pista sabe como é. Até então, a empolgação estava alta. Show de abertura, Rocket Rocks. Ninguém gostou. Segunda banda, Forgotten Boys. Não empolgou, mas receberam menos insultos do público que a banda anterior. Terceira banda, a do sósia de Axl, Sebastian Bach – que, confesso, jamais havia ouvido sequer uma música de seu repertório . O estilo do bahamense (Bahamas e sua tradição no Rock mundial...) já estava mais no gosto dos fãs de Guns, se comparado com as duas bandas anteriores. Aplaudido, por vezes ovacionado, Sebastian fez um belo show. Mas a sua entrada no palco aconteceu somente às 21h:30, exatamente o horário que Axl e sua trupe deveriam começar a cantar “Chinese Democracy.

Após Sebastian Bach, a demora. A montagem de palco e, aposto, um certo estrelismo do Guns N’ Roses fez com que a banda começasse a apresentação somente no trigésimo nono minuto do domingo. A espera valeu a pena? Fãs de Guns, por favor, manerem no amor e percebam o que aconteceu convosco (ou conosco?). Na fila desde as primeiras horas do sábado (alguns desde sexta-feira), um atraso de três horas é, no mínimo, falta de respeito. A partir do momento em que os portões foram abertos, até o começo do show, passaram-se oito horas!

Isso sem contar no total descaso com o bem estar de quem estava na pista comum. Enquanto o sol batia forte, bombeiros lançavam jatos d’água nos fãs para refrescar (muitas vezes, sem que os mesmos estivessem de acordo com o banho). Mas a noite, quando o calor aumentou devido à chegada de mais gente e ao frenesi com a proximidade do show, os jatos pararam. E, para ganhar a estrelinha que coroa uma organização incompetente, a caríssima água (R$ 3 o copo. Em alguns vendedores, o mesmo copo custava R$ 5) parou de ser vendida no setor durante o show de Sebastian Bach e assim o foi até o final do festival (quase tantos shows e tanta espera quanto um Rock in Rio). E sabe-se lá o motivo. Óbvio, só estava lá se espremendo quem foi estúpido o suficiente (como eu). Mas não se pagou barato para ficar ali. O mínimo que os organizadores do evento poderiam ter feito era disponibilizar a VENDA de água para que as pessoas não passassem mal, como cerca de dez pessoas que este repórter viu serem empurradas para o socorro dos bombeiros. E eu repito que disse VENDER água, não CEDER, ou seja, prestar um serviço, não fazer um favor.

Horas de espera, calor insuportável, bandas de abertura intermináveis (Sebastian Bach tocou por quase uma hora e meia, foi um show de verdade, não uma abertura), cenas que, imagino, lembram um pouco as do Haiti pós-terremoto do começo de 2010 (guardadas as devidas proporções, por favor), com pessoas implorando aos seguranças que chamassem um vendedor de água para atendê-los. Valeu a pena? Um ótimo show com um Axl nervosinho após ser acertado por uma garrafa logo na primeira música e, depois, engraçadinho, fazendo piadinhas, animado (como correu o rapaz!), efeitos visuais maravilhosos (fogos, labaredas, dentre outras pirotecnias) e uma banda que parece sobreviver de passado. O álbum Chinese Democracy não caiu nas graças da galera. Suas músicas, quando tocadas, não eram tão ovacionadas. Em compensação, “Welcome to the Jungle”, “November Rain”, “Knocking on Heaven’s Door”, dentre outras das antigas, levavam o público ao delírio. Duas horas e quarenta de show (terminou às 3h20 de domingo). Foi o melhor show da minha vida. E o pior também.


Repórter Raphael Florencio,
estupidamente se espremendo na
pista do show do Guns N' Roses



Foto: Arquivo Pessoal

Raphael Florencio