Guns N’ Roses no Brasil. Fui ao show com o ânimo de um adolescente (apesar da minha fase de pendurar pôsteres do Axl Rose na parede do quarto já ter passado faz muito tempo). Cheguei ao Palestra Itália às 14 horas, sem fazer a menor ideia do que me esperaria na tal “pista comum”. As primeiras 2 horas e meia de fila foram tranqüilas. Você faz amizades, um belo clima de confraternização.
16h:30, portões abertos. Correria tradicional que só quem já foi em shows em pista sabe como é. Até então, a empolgação estava alta. Show de abertura, Rocket Rocks. Ninguém gostou. Segunda banda, Forgotten Boys. Não empolgou, mas receberam menos insultos do público que a banda anterior. Terceira banda, a do sósia de Axl, Sebastian Bach – que, confesso, jamais havia ouvido sequer uma música de seu repertório . O estilo do bahamense (Bahamas e sua tradição no Rock mundial...) já estava mais no gosto dos fãs de Guns, se comparado com as duas bandas anteriores. Aplaudido, por vezes ovacionado, Sebastian fez um belo show. Mas a sua entrada no palco aconteceu somente às 21h:30, exatamente o horário que Axl e sua trupe deveriam começar a cantar “Chinese Democracy.
Após Sebastian Bach, a demora. A montagem de palco e, aposto, um certo estrelismo do Guns N’ Roses fez com que a banda começasse a apresentação somente no trigésimo nono minuto do domingo. A espera valeu a pena? Fãs de Guns, por favor, manerem no amor e percebam o que aconteceu convosco (ou conosco?). Na fila desde as primeiras horas do sábado (alguns desde sexta-feira), um atraso de três horas é, no mínimo, falta de respeito. A partir do momento em que os portões foram abertos, até o começo do show, passaram-se oito horas!
Isso sem contar no total descaso com o bem estar de quem estava na pista comum. Enquanto o sol batia forte, bombeiros lançavam jatos d’água nos fãs para refrescar (muitas vezes, sem que os mesmos estivessem de acordo com o banho). Mas a noite, quando o calor aumentou devido à chegada de mais gente e ao frenesi com a proximidade do show, os jatos pararam. E, para ganhar a estrelinha que coroa uma organização incompetente, a caríssima água (R$ 3 o copo. Em alguns vendedores, o mesmo copo custava R$ 5) parou de ser vendida no setor durante o show de Sebastian Bach e assim o foi até o final do festival (quase tantos shows e tanta espera quanto um Rock in Rio). E sabe-se lá o motivo. Óbvio, só estava lá se espremendo quem foi estúpido o suficiente (como eu). Mas não se pagou barato para ficar ali. O mínimo que os organizadores do evento poderiam ter feito era disponibilizar a VENDA de água para que as pessoas não passassem mal, como cerca de dez pessoas que este repórter viu serem empurradas para o socorro dos bombeiros. E eu repito que disse VENDER água, não CEDER, ou seja, prestar um serviço, não fazer um favor.
Horas de espera, calor insuportável, bandas de abertura intermináveis (Sebastian Bach tocou por quase uma hora e meia, foi um show de verdade, não uma abertura), cenas que, imagino, lembram um pouco as do Haiti pós-terremoto do começo de 2010 (guardadas as devidas proporções, por favor), com pessoas implorando aos seguranças que chamassem um vendedor de água para atendê-los. Valeu a pena? Um ótimo show com um Axl nervosinho após ser acertado por uma garrafa logo na primeira música e, depois, engraçadinho, fazendo piadinhas, animado (como correu o rapaz!), efeitos visuais maravilhosos (fogos, labaredas, dentre outras pirotecnias) e uma banda que parece sobreviver de passado. O álbum Chinese Democracy não caiu nas graças da galera. Suas músicas, quando tocadas, não eram tão ovacionadas. Em compensação, “Welcome to the Jungle”, “November Rain”, “Knocking on Heaven’s Door”, dentre outras das antigas, levavam o público ao delírio. Duas horas e quarenta de show (terminou às 3h20 de domingo). Foi o melhor show da minha vida. E o pior também.
Repórter Raphael Florencio,
estupidamente se espremendo na
pista do show do Guns N' Roses
Foto: Arquivo Pessoal
Raphael Florencio