Desde que a história do semideus Percy Jackson figurou na lista dos livros mais vendidos do jornal The New York Times e foi adaptada para o cinema, alguns críticos começaram a espalhar que nascia ali um personagem com o potencial de fazer tanto – ou mais – sucesso que o bruxo da saga Harry Potter. A constatação foi motivada por supostas semelhanças entre as histórias de Rick Riordan e J. K. Rowling. Assim como Harry Potter, Percy Jackson descobre quando criança que tem superpoderes, vai estudar em uma escola especial e passa por diversas aventuras eletrizantes ao lado de dois grandes amigos. Até aí, o enredo é parecido. Mas a magia de Harry Potter é muito mais contagiante do que a mitologia “moderninha” de Percy Jackson e sua trupe. Enquanto a britânica J. K. Rowling constrói um mundo mágico onde qualquer um gostaria de viver, o norte-americano Rick Riordan estraga a mitologia grega para dar vida a um personagem sem profundidade que não convence como herói.
Apesar de a mitologia ser considerada um relato fabuloso, o contraditório na “Ilíada” de Homero, por exemplo, é aceitável ao olhos do leitor. Mesmo sabendo que tudo aquilo é irreal, suspendemos nossa descrença e embarcamos naquela literatura fantástica. No primeiro livro de Percy Jackson, “O ladrão de raios”, isso não acontece. Há passagens sofríveis, como a explicação para o Monte Olimpo “pairar” sobre os EUA – mais precisamente sobre o Empire State Building. Segundo o livro, os deuses se deslocariam de país para país de acordo com o poder de uma nação na geopolítica mundial. O texto revela: da Grécia, arrumaram as malas e foram para Roma, depois pegaram suas trouxas e se mudaram para a Alemanha, para a França, para a Espanha e agora, após trazer o caminhão de mudança para o continente americano, habitam o país de Obama. Parece piada, né?
A imaginação fértil – e nada verossímil de Rick Riordan – continua na passagem em que ele apresenta o chefe do Acampamento Meio-Sangue, onde vive e estuda Percy Jackson. Na Hogwarts do livro de Riordan, não existe um bruxo poderoso e inteligente como Alvo Dumbledore, mas Dionísio, o deus do vinho, que garante o sustento da moçada que mora no local plantando morangos – isso mesmo, morangos! – que são exportados para Nova Iorque e para o Monte Olimpo. Eu nunca vi um deus precisar plantar morangos para sobreviver, mas tudo bem... Aliás, já que precisam plantar alguma coisa para garantir o pão de cada dia, por que não plantam soja? A economia brasileira mostra que é um bom caminho a ser seguido. Há uma outra passagem de “O ladrão de raios” que precisa ser destacada: o livro mostra que o resultado do cruzamento entre um deus e um humano produz seres disléxicos e com déficit de atenção – o problema atormenta a vida do coitado do Percy Jackson desde pequeno. Essa é a explicação científica para a dislexia e para o déficit de atenção mais surreal que eu já vi. É por causa de pontos como esse que desisti de ler a saga completa de Percy Jackson. A história do primeiro livro de Rick Riordan tem seu valor enquanto entretenimento, mas está a milhas de distância da qualidade narrativa de Harry Potter. Para quem duvidar disso, peço que, por favor, leia com atenção os livros de J. K. Rowling e faça a comparação. Lá, com certeza, os bruxos não plantam morangos.
Por Eliseu Barreira Junior
Imagem Montagem sobre foto de divulgação
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