domingo, 25 de abril de 2010

Educação que dói no bolso

Como universitária e amante da literatura (confesso neste post que compro livros compulsivamente) fiquei interessadíssima ao visitar o site Educar e Crescer e me deparar com a seguinte reportagem: “Biblioteca Básica - Dezoito educadores selecionam 204 obras essenciais para serem lidas do Ensino Infantil ao Ensino Médio”.

Antes mesmo de clicar no link para a tal “biblioteca básica” já pensei “ótimo, sempre li muito e certamente já conheço a maioria desses livros”. Ao terminar de navegar pela reportagem suspirei e disse “ok, tive uma educação 85% deficitária”.

Uma coisa interessante é que são listados livros ditos “essenciais” que deveriam ser lidos dos 2 aos 18 anos de idade, mas será que, aos olhos do público dessa faixa etária, é realmente válido ler essas indicações ou isso é apenas importante na visão dos educadores? Além disso, imaginem se fossemos comprar todos os livros indicados... Falência resumiria a situação da família.

Em primeiro lugar, qual criança ou adolescente prefere ler “Senhora” ou “Iracema”, ambos de José de Alencar, a “Harry Potter”, da J.K. Rowling? Os dois primeiros são – pelo menos em minha humilde opinião – aqueles livros que os professores de Português nos obrigam a ler (sim, a palavra é obrigar!) – para que não tiremos zero na prova. Não falo aqui da questão de qualidade dos livros, mas sobre a relação entre qualidade versus prazer.

Muitas obras – e excelentes obras – nos são pedidas nas escolas e acabamos lendo tudo sem o menor senso crítico e sem relacioná-las ao contexto histórico e literário, o que, na maioria das vezes, torna a leitura algo maçante. Pergunto-me se um adolescente de 15 anos tem maturidade necessária para encarar a “Odisséia” de Homero ou, aos 13 anos, ficar cara a cara com “Otelo”, de Shakespeare. A probabilidade de o leitor passar a odiar ou ver com maus olhos tanto a produção do autor em questão quanto à literatura como um todo acaba ficando alta simplesmente pelo fato dele não estar preparado para compreender aquilo que lhe fora cobrado.

Além disso, vale ressaltar que a “lista de livros” essenciais não é o que podemos chamar de pechincha. Utilizando como base os preços sugeridos pelas lojas virtuais das respectivas editoras, fiz um levantamento de quanto ($$) os pais teriam que abrir mão para que seus filhinhos lindos guti-gutis do coração tivessem acesso a essa educação básica: dos 10 aos 18 anos seriam gastos aproximadamente R$3701.2. Portanto, pense bem antes de tirar o atraso e ler tudo. Vale vender uns brinquinhos na pracinha perto da escola, fazer uma rifa ou arrumar um trabalho braçal, pois não é pra qualquer um colocar a mão no bolso e soltar mais de 3000 reais na compra de livros para o filhote.

Voto, para finalizar, que "Harry Potter" entre para essa lista (no Submarino, por exemplo, os 7 volumes chegam a ser vendidos por menos de 100 reais). Tal qual o bruxo, a maturidade dos jovens aumenta de acordo com a idade e com os livros da série. Não basta induzir a leitura de algo só por que é considerado clássico, é necessário que o leitor tenha vontade de ler outras e outras obras quando o primeiro livro findar.

Coloco abaixo um trecho do documentário “Harry Potter: um ano na vida de J.K. Rowling”, no qual podemos reparar os olhinhos curiosos e sedentos das crianças, adolescentes e adultos diante da possibilidade de saber o final da história de Harry Potter. Por melhor que seja o livro, por mais incrível que seja para os educadores, creio que o mais importante é fazer com que o leitor termine de ler uma página morrendo de ansiedade para começar a próxima.




Por Ana Carolina Athanásio

sábado, 24 de abril de 2010

Por que vale a pena ver "Tempos de paz"

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente,
os homens presentes, a vida presente.


Recentemente, decidi rever o filme “Tempos de Paz”, produção nacional dirigida por Daniel Filho e com brilhantes atuações de Dan Stulbach e Tony Ramos (foto ao lado). Para entender a história a fundo, é bom conhecer o poema “Mãos Dadas”, do livro “Sentimento do Mundo” (1940), escrito por Carlos Drummond de Andrade. Os primeiros versos do poema são recitados logo no começo do longa pelo personagem Clausewitz, interpretado por Dan Stulbach. Fugindo dos horrores da Segunda Guerra Mundial, Clausewitz, um ator de teatro da Polônia, é considerado suspeito por funcionários da imigração brasileira ao desembarcar no país. Em virtude disso, acaba interrogado por um torturador da ditadura de Getúlio Vargas. Nesse encontro, o polonês faz com que Segismundo, o 'carrasco' interpretado por Tony Ramos, revele a faceta de um funcionário público acostumado a cumprir ordens. Diante da queda do nazi-fascismo, Segismundo está à espera de novas diretrizes governamentais para os tempos de paz. Ele diz que, por causa disso, Clausewitz terá que voltar para a Europa. A partir daí, o polonês se depara com um ser humano do “mundo caduco” – do qual ele fugia – e que acreditava não existir no Brasil. É nesse mundo, retratado no poema “Mãos dadas”, que o nazismo, o salazarismo e o getulismo disseminaram ideias que trouxeram dor e sofrimento a milhares de pessoas. No filme, Clausewitz é vítima de tal realidade (seus familiares e seu melhor amigo foram mortos com a ascensão nazista) e o porta-voz de uma fuga possível. Ao chegar à terra em que buscará construir uma nova vida, anuncia para o funcionário da alfândega: “Não serei o poeta de um mundo caduco.”

Segismundo, por outro lado, também é uma vítima. É o policial que ao cumprir ordens torturou dezenas de presos políticos. É o homem que agiu como os soldados que torturaram e tiraram de Clausewitz aqueles que o polonês mais amava. Mas por que vítima? O caso do nazista Adolf Eichmann, responsável pelo processo de execução de milhares de judeus nos campos de concentração durante a Segunda Guerra, pode ajudar a entender. Como mostra a pensadora Hannah Arendt, é por atitudes impensadas e em conformidade com determinados padrões ideológicos presentes no meio que inúmeros indivíduos deixam de se posicionar criticamente frente ao senso comum. Eichmann e Segismundo são exemplos desses indivíduos. Ambos têm uma profissão demasiadamente marcada pelo caráter funcional de sua conduta. São exemplos de homens que não param para refletir, apenas atuam, obedecem para serem aceitos e reconhecidos dentro da hierarquia. Buscam cumprir somente o papel de bom subordinado, sem refletir sobre as consequências dos atos que executam.

Segundo Hannah Arendt, a realidade que marcou toda a vida de Eichmann pode ser caracterizada pela passividade, pela lealdade e pelo estrito cumprimento dos deveres impostos. Em “Tempos de Paz”, Segismundo é um personagem da ditadura Vargas que, como Eichmann, não sabia pensar, não sabia ir além das ordens que deveria cumprir. Cabe a Clausewitz, portanto, “dar as mãos” ao policial e tirá-lo, nem que por um instante, desse papel de bom subordinado da estrutura de um mundo caduco. Logo, ele se destaca na história. É o personagem que revela ao público que há um caminho libertador. E a arte é esse caminho. Clausewitz propõe um desafio ao policial: se ele conseguir emocioná-lo com a cena de uma peça, Segismundo concede o visto, o que acaba acontecendo. O torturador chora com a encenação do polonês, dá o visto ao imigrante e, pela primeira vez, pratica um ato que não foi ordenado por ninguém. A lágrima que escorre em seu rosto se torna o símbolo de uma libertação momentânea. A concepção arendtiana defende que é por meio do exercício contínuo da reflexão e da perplexidade diante do mundo que se torna possível a fuga de uma vida sem sentido e contraditória como a de Eichmann. Já em “Tempos de Paz”, Bosco Brasil, o roteirista do filme, constrói Clausewitz para mostrar que a arte também pode ser um exercício libertador. Uma válvula de escape diante de uma vida sem sentido e contraditória como a de Segismundo. É por esse e por outros motivos que vale a pena ver "Tempos de Paz".

Por Eliseu Barreira Junior

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A alma do negócio

Sou do tipo de pessoa que não troca de canal quando começa o intervalo comercial. Também não deixo de ler uma página de anúncio bonita em uma revista e, na maioria das vezes, não resisto e “passo o mouse” nas publicidades da web. Sou uma admiradora de propagandas benfeitas e acredito piamente que elas têm grande influência sobre o sucesso ou fracasso de um produto.

A trilha sonora, os slogans, os personagens, o texto: tudo isso colabora para a produção de um bom anúncio. Em 2009, a música da propaganda do Novo Ford Focus, por exemplo, garantiu um comercial de carro inusitado e atrativo. No quesito “slogans”, o da Mastercard – “Existem coisas que o dinheiro não compra. Para todas as outras existe MasterCard” – é, sem dúvida, um dos mais emblemáticos. Quem não se lembra também dos famosos textos de “Não é assiiim nenhum Brastemp” ou de personagens marcantes como o garoto Bom Bril ?

Esses vídeos estão todos na web, fazendo a alegria dos fãs de propagandas. Mas, hoje, essa relação entre publicidade e YouTube é muito mais que uma sessão nostalgia. A internet deixou de ser apenas um espaço onde se reaproveitam anúncios de TV ou campanhas do impresso. O desenvolvimento de novas plataformas exige uma reestruturação de todas as áreas da comunicação. Não é só o jornalismo que precisa ser repensado. A publicidade, as relações públicas, o audiovisual, todas as atividades que lidam com comunicação têm que se adaptar aos novos meios.

No começo deste mês, a consultoria Zenithoptmedia divulgou que, pela primeira vez, a internet passou as revistas e se tornou a terceira mídia no ranking das que mais atraem investimentos. Ela já é dona de 12,6% do bolo publicitário no planeta, ficando atrás apenas dos jornais, com 23,1%, e da televisão, com 39,4%. As revistas estão agora em quarto lugar, com 10,3%.

A internet recebe cada vez mais atenção do mercado e a audiência de canais como o YouTube é informação importante para o processo de criação das agências. A Advertising Age, revista especializada em publicidade, divulgou, também no começo de abril, uma lista com os 20 melhores anúncios do YouTube. Entre eles, estes quatro foram os que mais chamaram minha atenção.

Bebês fofos sempre encantam e vendem bem. A fabricante francesa de água mineral Evian apostou nessa fórmula e conseguiu um belo resultado. Não tem como segurar o “awnnnn”!



Este outro vídeo, da empresa alemã de telefonia móvel T-Mobile, soube casar perfeitamente conceito e imagens e ainda usou e abusou de música e dança - dois elementos que empolgam qualquer produção audiovisual:



A campanha The Fun Theory, da Volkswagen, já é criativa por si só. Ela pretende provar que diversão e simplicidade podem melhorar o comportamento das pessoas. Os vídeos acompanham a genialidade da campanha. Este mostra como degraus em forma de teclas de piano podem diminuir o uso da escada rolante:



Este último vídeo, do Google, surpreende, porque tem uma produção simples e extremamente eficaz. Por meio da narrativa de uma história de amor, ele mostra as vantagens/o alcance da principal ferramenta do Google - a de busca:



E vocês, se lembram de algum anúncio que vale a pena (re)ver?

Por Mariane Domingos

Revista Sete Fios

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Mais real do que mágico

Quando eu era mais nova, li Viver para Contar, de Gabriel García Márquez. O livro é uma autobiografia que contempla a infância e a juventude de um dos meus autores preferidos. Na época, fiquei maravilhada com aquela casa encantada e muito triste por já descobrir, tão cedo, que eu não teria tantas histórias para contar nem em muitos anos de vida.

A obra contempla ainda os primeiros anos de Gabo como jornalista em Bogotá, e a narrativa é interrompida no momento em que ele é enviado como correspondente para a Europa. Os bares, a vida boêmia, as descobertas e a vida romanceada de jornalista que ele levava contribuíram muito para influenciar minha escolha perante o vestibular, alguns anos mais tarde.

Após esse livro, García Márquez abandonou o projeto e, de certa forma, decidiu entregá-lo a Gerald Martin, autor de Gabriel García Márquez - Uma Vida, recentemente lançado pela Ediouro.
Porém, no quinto volume da coleção Obras Jornalísticas, publicada pela Record no Brasil, suas crônicas em parte conseguem completar um pouco desse espaço deixado órfão. Entre os textos, publicados em diferentes jornais de 1961 a 1984, o que mais me impressiona é algo que já havia chamado minha atenção há muito tempo: a presença dos personagens de seus romances em sua realidade cotidiana.

O realismo mágico, aqui, perde parte do encanto porque parece ser mais real do que mágico. Em uma das crônicas, o escritor colombiano relata a visita de um editor espanhol aos pais dele em Cartagena de Indias.

Lá, encontram uma neta que na noite anterior havia se desdobrado em duas e a tia Elvira, que chega na casa após 15 anos de ausência apenas para anunciar que viera para se despedir, pois já estava quase morrendo.

Ao fim da viagem, o visitante chega a mesma conclusão a que nós, leitores, alcançamos quando fechamos os livros de narrativas com traços biográficos de Gabo: "Você não inventou nada em seus livros. Você é um simples escrivão sem imaginação".

Por Tainara Machado

Imagem Divulgação

Revista Sete Fios