Como universitária e amante da literatura (confesso neste post que compro livros compulsivamente) fiquei interessadíssima ao visitar o site Educar e Crescer e me deparar com a seguinte reportagem: “Biblioteca Básica - Dezoito educadores selecionam 204 obras essenciais para serem lidas do Ensino Infantil ao Ensino Médio”. Antes mesmo de clicar no link para a tal “biblioteca básica” já pensei “ótimo, sempre li muito e certamente já conheço a maioria desses livros”. Ao terminar de navegar pela reportagem suspirei e disse “ok, tive uma educação 85% deficitária”.
Uma coisa interessante é que são listados livros ditos “essenciais” que deveriam ser lidos dos 2 aos 18 anos de idade, mas será que, aos olhos do público dessa faixa etária, é realmente válido ler essas indicações ou isso é apenas importante na visão dos educadores? Além disso, imaginem se fossemos comprar todos os livros indicados... Falência resumiria a situação da família.
Em primeiro lugar, qual criança ou adolescente prefere ler “Senhora” ou “Iracema”, ambos de José de Alencar, a “Harry Potter”, da J.K. Rowling? Os dois primeiros são – pelo menos em minha humilde opinião – aqueles livros que os professores de Português nos obrigam a ler (sim, a palavra é obrigar!) – para que não tiremos zero na prova. Não falo aqui da questão de qualidade dos livros, mas sobre a relação entre qualidade versus prazer.
Muitas obras – e excelentes obras – nos são pedidas nas escolas e acabamos lendo tudo sem o menor senso crítico e sem relacioná-las ao contexto histórico e literário, o que, na maioria das vezes, torna a leitura algo maçante. Pergunto-me se um adolescente de 15 anos tem maturidade necessária para encarar a “Odisséia” de Homero ou, aos 13 anos, ficar cara a cara com “Otelo”, de Shakespeare. A probabilidade de o leitor passar a odiar ou ver com maus olhos tanto a produção do autor em questão quanto à literatura como um todo acaba ficando alta simplesmente pelo fato dele não estar preparado para compreender aquilo que lhe fora cobrado.
Além disso, vale ressaltar que a “lista de livros” essenciais não é o que podemos chamar de pechincha. Utilizando como base os preços sugeridos pelas lojas virtuais das respectivas editoras, fiz um levantamento de quanto ($$) os pais teriam que abrir mão para que seus filhinhos lindos guti-gutis do coração tivessem acesso a essa educação básica: dos 10 aos 18 anos seriam gastos aproximadamente R$3701.2. Portanto, pense bem antes de tirar o atraso e ler tudo. Vale vender uns brinquinhos na pracinha perto da escola, fazer uma rifa ou arrumar um trabalho braçal, pois não é pra qualquer um colocar a mão no bolso e soltar mais de 3000 reais na compra de livros para o filhote.
Voto, para finalizar, que "Harry Potter" entre para essa lista (no Submarino, por exemplo, os 7 volumes chegam a ser vendidos por menos de 100 reais). Tal qual o bruxo, a maturidade dos jovens aumenta de acordo com a idade e com os livros da série. Não basta induzir a leitura de algo só por que é considerado clássico, é necessário que o leitor tenha vontade de ler outras e outras obras quando o primeiro livro findar.
Coloco abaixo um trecho do documentário “Harry Potter: um ano na vida de J.K. Rowling”, no qual podemos reparar os olhinhos curiosos e sedentos das crianças, adolescentes e adultos diante da possibilidade de saber o final da história de Harry Potter. Por melhor que seja o livro, por mais incrível que seja para os educadores, creio que o mais importante é fazer com que o leitor termine de ler uma página morrendo de ansiedade para começar a próxima.
Por Ana Carolina Athanásio


