Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente,
os homens presentes, a vida presente.
Recentemente, decidi rever o filme “Tempos de Paz”, produção nacional dirigida por Daniel Filho e com brilhantes atuações de Dan Stulbach e Tony Ramos (foto ao lado). Para entender a história a fundo, é bom conhecer o poema “Mãos Dadas”, do livro “Sentimento do Mundo” (1940), escrito por Carlos Drummond de Andrade. Os primeiros versos do poema são recitados logo no começo do longa pelo personagem Clausewitz, interpretado por Dan Stulbach. Fugindo dos horrores da Segunda Guerra Mundial, Clausewitz, um ator de teatro da Polônia, é considerado suspeito por funcionários da imigração brasileira ao desembarcar no país. Em virtude disso, acaba interrogado por um torturador da ditadura de Getúlio Vargas. Nesse encontro, o polonês faz com que Segismundo, o 'carrasco' interpretado por Tony Ramos, revele a faceta de um funcionário público acostumado a cumprir ordens. Diante da queda do nazi-fascismo, Segismundo está à espera de novas diretrizes governamentais para os tempos de paz. Ele diz que, por causa disso, Clausewitz terá que voltar para a Europa. A partir daí, o polonês se depara com um ser humano do “mundo caduco” – do qual ele fugia – e que acreditava não existir no Brasil. É nesse mundo, retratado no poema “Mãos dadas”, que o nazismo, o salazarismo e o getulismo disseminaram ideias que trouxeram dor e sofrimento a milhares de pessoas. No filme, Clausewitz é vítima de tal realidade (seus familiares e seu melhor amigo foram mortos com a ascensão nazista) e o porta-voz de uma fuga possível. Ao chegar à terra em que buscará construir uma nova vida, anuncia para o funcionário da alfândega: “Não serei o poeta de um mundo caduco.”
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente,
os homens presentes, a vida presente.
Recentemente, decidi rever o filme “Tempos de Paz”, produção nacional dirigida por Daniel Filho e com brilhantes atuações de Dan Stulbach e Tony Ramos (foto ao lado). Para entender a história a fundo, é bom conhecer o poema “Mãos Dadas”, do livro “Sentimento do Mundo” (1940), escrito por Carlos Drummond de Andrade. Os primeiros versos do poema são recitados logo no começo do longa pelo personagem Clausewitz, interpretado por Dan Stulbach. Fugindo dos horrores da Segunda Guerra Mundial, Clausewitz, um ator de teatro da Polônia, é considerado suspeito por funcionários da imigração brasileira ao desembarcar no país. Em virtude disso, acaba interrogado por um torturador da ditadura de Getúlio Vargas. Nesse encontro, o polonês faz com que Segismundo, o 'carrasco' interpretado por Tony Ramos, revele a faceta de um funcionário público acostumado a cumprir ordens. Diante da queda do nazi-fascismo, Segismundo está à espera de novas diretrizes governamentais para os tempos de paz. Ele diz que, por causa disso, Clausewitz terá que voltar para a Europa. A partir daí, o polonês se depara com um ser humano do “mundo caduco” – do qual ele fugia – e que acreditava não existir no Brasil. É nesse mundo, retratado no poema “Mãos dadas”, que o nazismo, o salazarismo e o getulismo disseminaram ideias que trouxeram dor e sofrimento a milhares de pessoas. No filme, Clausewitz é vítima de tal realidade (seus familiares e seu melhor amigo foram mortos com a ascensão nazista) e o porta-voz de uma fuga possível. Ao chegar à terra em que buscará construir uma nova vida, anuncia para o funcionário da alfândega: “Não serei o poeta de um mundo caduco.”Segismundo, por outro lado, também é uma vítima. É o policial que ao cumprir ordens torturou dezenas de presos políticos. É o homem que agiu como os soldados que torturaram e tiraram de Clausewitz aqueles que o polonês mais amava. Mas por que vítima? O caso do nazista Adolf Eichmann, responsável pelo processo de execução de milhares de judeus nos campos de concentração durante a Segunda Guerra, pode ajudar a entender. Como mostra a pensadora Hannah Arendt, é por atitudes impensadas e em conformidade com determinados padrões ideológicos presentes no meio que inúmeros indivíduos deixam de se posicionar criticamente frente ao senso comum. Eichmann e Segismundo são exemplos desses indivíduos. Ambos têm uma profissão demasiadamente marcada pelo caráter funcional de sua conduta. São exemplos de homens que não param para refletir, apenas atuam, obedecem para serem aceitos e reconhecidos dentro da hierarquia. Buscam cumprir somente o papel de bom subordinado, sem refletir sobre as consequências dos atos que executam.
Segundo Hannah Arendt, a realidade que marcou toda a vida de Eichmann pode ser caracterizada pela passividade, pela lealdade e pelo estrito cumprimento dos deveres impostos. Em “Tempos de Paz”, Segismundo é um personagem da ditadura Vargas que, como Eichmann, não sabia pensar, não sabia ir além das ordens que deveria cumprir. Cabe a Clausewitz, portanto, “dar as mãos” ao policial e tirá-lo, nem que por um instante, desse papel de bom subordinado da estrutura de um mundo caduco. Logo, ele se destaca na história. É o personagem que revela ao público que há um caminho libertador. E a arte é esse caminho. Clausewitz propõe um desafio ao policial: se ele conseguir emocioná-lo com a cena de uma peça, Segismundo concede o visto, o que acaba acontecendo. O torturador chora com a encenação do polonês, dá o visto ao imigrante e, pela primeira vez, pratica um ato que não foi ordenado por ninguém. A lágrima que escorre em seu rosto se torna o símbolo de uma libertação momentânea. A concepção arendtiana defende que é por meio do exercício contínuo da reflexão e da perplexidade diante do mundo que se torna possível a fuga de uma vida sem sentido e contraditória como a de Eichmann. Já em “Tempos de Paz”, Bosco Brasil, o roteirista do filme, constrói Clausewitz para mostrar que a arte também pode ser um exercício libertador. Uma válvula de escape diante de uma vida sem sentido e contraditória como a de Segismundo. É por esse e por outros motivos que vale a pena ver "Tempos de Paz".
Por Eliseu Barreira Junior
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