terça-feira, 4 de maio de 2010

Senta que lá vem a história

Chegamos no estádio na hora marcada. Entramos no prédio da administração e fomos recebidos pelo diretor do Pacaembu, que nos apresentou a um dos ícones da casa: o famoso Luizão. Alegre, com sorriso largo no rosto, nos cumprimentou e avisou que Flor, seu amigo, já estava vindo para o nosso bate-papo.

Nos 20 minutos que ficamos ali sentados, vimos passar algumas pessoas, inclusive, o Rivelino. O Rapha soltou um "uau, nossa é ele" e eu me contive a exclamar "ah, que legal!". Talvez se eu soubesse em detalhes que ele cresceu jogando bola em campos de várzea, que passou pelo Corinthians vestindo a camisa 10, que foi convocado para a seleção brasileira, na qual vestiu a camisa por mais de 100 vezes, e que jogou três Copas do Mundo - a começar pela que consagrou o Brasil como Tricampeão, em 1970 -, é bem provável que eu demonstrasse um entusiasmo maior. Enfim, ele estava lá para gravar um programa especial sobre o estádio para uma emissora de TV.

Foi justamente essa profusão de conteúdo na mídia a respeito do aniversário de 70 anos do Pacaembu que mais dificultou nosso trabalho. Como abordar a história sem nos tornarmos repetitivos? Como contar a relevância do local sem imitar os grandes veículos de comunicação? É, não foi fácil. Um dos nossos personagens principais já era estrela e figurava em reportagens especiais de grandes veículos de comunicação. Porém, lá estava o Luizão, prefeito do Pacaembu, ao lado de seu amigo Flor, mais uma vez cheio de boa vontade em atender outra equipe de reportagem.

Oi, tá gravando
Sentamos no banco, ligamos o gravador e pedimos que se apresentassem. Ainda com certa postura comedida diante do gravador, ambos iniciaram o diálogo. Pergunta daqui, comenta dali, e eles foram se soltando. Não valia se prender a certas datas, estavam lá há tantos anos que marcos do tipo "qual foi evento mais importante para você nesse tempo todo de trabalho?" eram uma incógnita. A resposta para indagações ao estilo dessa era sempre "ah, mas foram tantas. Faz tanto tempo", que desistimos de tentar contextualizar tudo e várias vezes nos pegávamos com cara de bobos ouvindo as milhares de pequenas histórias.

O Flor meio sem jeito, demonstrava nas expressões, o carinho pelo amigo e pelo estádio. Luizão, por sua vez, agradecia sempre que podia a casa que o acolheu desde 1969 e as pessoas com quem conviveu nesse período todo. A emoção era tanta que em uma das vezes sua voz fraquejou e seus olhos marejaram. Eu mesma fiquei balançada. Jamais imaginei que por trás de toda a suntuosidade do centro esportivo municipal havia uma faceta tão "familiar" da administração, para usar um termo do próprio Luizão.

Cheios de intimidade
Eles são conhecidos por craques do futebol, são amigos de gente graúda do meio esportivo e têm "causo" pra mais de semana. Basta dizer que ficamos praticamente duas horas ininterruptas conversando, na verdade, os ouvindo. Ficamos curiosíssimos em participar dos famosos churrascos dos funcionários, de uma das festinhas como a surpresa de aniversário feita para o Luizão que havia acontecido há poucos dias. "Vocês precisam vir em dia de festa, né, Flor? Ver a roda de conversa com o pessoal das antigas, aí sim vocês vão ver como sai história", dizia rindo com ar saudosista.

O Rapha também aproveitou para debater jogos marcantes e a situação dos times no atual campeonato com os entrevistados, praticamente um mundo estranho para mim e por isso deixo essa parte do relato para ele. O que eu pesquei é que o Flor tem uma teoria de que a cada dez anos um time do interior é campeão do Paulista. Santista, imagino que ele esteja feliz depois da vitória de domingo. Já Luizão, corinthiano, não sei dizer - só leio as manchetes de esporte e não me lembro de uma recente. Apesar da ignorância sobre o assunto, saí encantada com o estádio e determinada a comprar o álbum da Copa. Eu e meu parceiro de aventuras da vez, já que no dia do lançamento do álbum estávamos trabalhando e não pudemos comprar. Felizes e contentes, adquirimos o artefato na banca em frente ao "Paca" e demos início à coleção.

É isso? É, deve ser
No fim, nossa grande vantagem em relação aos outros jornalistas é que podíamos contar a história do modo como ela nos havia sido apresentada - recheada de emoção por parte de duas pessoas que acompanharam de perto boa parte da trajetória do estádio que completou 70 anos no dia 27 de abril. Sem retaliações por parte de alguma chefia, empolgados como focas que somos, fizemos a reportagem selecionando algumas facetas de tantas desse grande personagem da cidade de São Paulo, o Pacaembu.

Reportagem sobre os 70 anos do Pacaembu


Por Stephany Tiveron
Fotos: Gustavo Pizzo

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