
Começo este texto propondo um desafio aos leitores. Quando você ouve a palavra Islã, qual imagem aparece em sua mente? Para facilitar, darei algumas alternativas:
a - um homem barbudo, cujo nome é Osama bin Laden
b – uma mulher coberta por uma burqa
c - as torres do World Trade Center pegando fogo
d - a imagem da morte
e - pessoas armadas gritando palavras de ordem
f - homens-bomba
g - pessoas rezando ajoelhadas
h - mulheres com o rosto coberto por um véu
i - Barack Obama
j - George W. Bush
Agora, das palavras abaixo, qual delas você associaria diretamente ao Islamismo?
a – terrorismo
b – fundamentalismo
c - autoritarismo
d - extremismo
e - paz
f - amor
g - união
h - bem
i - mal
Dá para perceber que todas as possibilidades apresentadas para definir a religião seguida por 19,6% da população mundial – 17,4% são católicos – não passam de construções discursivas. Nesse sentido, cabe perguntar: o discurso é reflexo da realidade? Você já parou para pensar nisso? Os filósofos idealistas sempre afirmaram que a linguagem cria uma imagem do mundo, ou seja, cria a maneira como percebemos e concebemos o que está a nossa volta.
É por causa disso que podemos dizer que a linguagem tem influência sobre o comportamento do homem. Tudo o que é dito contém na sua essência a visão de mundo de alguém, “um sistema de valores, isto é, estereótipos dos comportamentos humanos que são valorizados positiva ou negativamente. Ele veicula os tabus comportamentais. A sociedade transmite aos indivíduos – com a linguagem e graças a ela – certos estereótipos, que determinam certos comportamentos. Esses estereótipos entranham-se de tal modo na consciência que acabam por ser considerados naturais” [1].
As perguntas que fiz acima estão carregadas de estereótipos do Islã. Se você tem em sua mente alguma das concepções que listei, provavelmente traz consigo algum tipo de preconceito com relação à religião que mais ganha adeptos no planeta atualmente. E sabe o motivo dele existir? A imprensa é, em parte, responsável por isso. Se analisarmos, por exemplo, a cobertura internacional dos principais jornais brasileiros veremos que em diversos momentos o que é islâmico vem associado a palavras com uma carga altamente negativa. Para eles, há “extremistas islâmicos”, “grupos radicais islâmicos”, “terroristas islâmicos”, “milícias fundamentalistas islâmicas”, etc. Assim, islâmico é um adjetivo que quase nunca aparece associado a algo bom.
Você pode me perguntar. Não existem terroristas islâmicos? Qual é o problema de chamá-los assim? Claro, existem. Há várias pessoas que interpretam de maneira, digamos, errada os preceitos do Alcorão. Mas a repetição reiterada desse tipo de expressão forma na cabeça de qualquer desavisado uma imagem negativa de quem professa o Islamismo. Tais palavras ajudam a reforçar os preconceitos e mal-entendidos que existem em torno do Islã. Pelo que eu saiba, nenhuma religião monoteísta é a favor de atos terroristas. O que há é uma minoria que pensa assim. Além disso, o extremismo, ao contrário do que possa parecer, não existe apenas entre os muçulmanos. Ele está presente em todas as religiões.
Segundo José Luiz Fiorin, a cada formação ideológica existente corresponde uma formação discursiva, que é um conjunto de temas e de figuras que materializa uma dada visão de mundo. “É com essa formação discursiva assimilada que o homem constrói seus discursos, que ele reage linguisticamente aos acontecimentos. Por isso, o discurso é mais o lugar da reprodução que o da criação” [2].
Dessa forma, se você associou Islã com terrorismo é porque reproduziu um discurso que assimilou. O texto de uma reportagem de jornal que faz questão de escrever “terrorista islâmico” é um discurso desse tipo.
Isso nos remete ao que Richard Dawkins [3], um dos mais importantes intelectuais da atualidade, usou para explicar a crença em Deus: os memes. Memes são unidades de transmissão cultural. São melodias, idéias, slogans, palavras, as modas no vestuário, as maneiras de se construir algo. Eles saltam de cérebro para cérebro através de um processo de imitação. Mas não é qualquer idéia que pode se propagar. Dawkins explica que a ideia de Deus tem um elevado grau de sobrevivência porque possui um grande apelo psicológico, fornece uma explicação superficialmente plausível para questões profundas e perturbadoras a respeito da existência e sugere que injustiças deste mundo podem ser compensadas num próximo.
Um meme pode se propagar de diversas maneiras, inclusive pelo discurso jornalístico. É possível afirmar que o principal elemento que dá força ao meme que diz que todo muçulmano é terrorista é a repetição de expressões como “fundamentalista islâmico”.
Aliás, Dawkins nos mostra que também são memes que influenciam o comportamento de um terrorista, a saber:
1) Você sobreviverá à sua própria morte.
2) Se você morrer como mártir, vai para uma parte do paraíso especialmente maravilhosa, onde se regalará com 72 virgens.
Com isso, podemos perceber que somos controlados por memes. Eles agem tanto no comportamento dos fundamentalistas que morrem em nome de Alá, quanto nas expressões usadas pelos jornalistas em seus textos.
Dawkins conclui em seu livro “O gene egoísta”, de maneira bastante esperançosa, que os seres humanos tem o poder de se revoltar contra os memes que atuam em seus cérebros. Mas parece difícil acreditar nessa possibilidade. As idéias (memes) propagadas são tão fortes que já cheguei a ler num lugar, que não me lembro agora, que “os muçulmanos são seres irracionais que precisam ser domesticados e, assim, facilmente exterminados”. Veja como uma idéia é poderosa. Ela está até agora na minha cabeça. Como controlá-la, é o maior problema.
O primeiro passo a ser dado pela imprensa é repensar o uso de expressões que conspiram silenciosamente para a propagação de ideias negativas sobre o Islamismo. O que deve ficar claro é que nem todo muçulmano é terrorista. O Islã não nega o Judaísmo nem o Cristianismo, mas se considera a religião que completa as mensagens anteriores a ela e sela o período de profecias numa síntese final.
Portanto, não podemos, através da linguagem, dar uma fisionomia islâmica ao terrorismo. Como nos lembra o dito atribuído a Maomé, “a tinta do sábio vale mais que o sangue do mártir”. Sejamos sábios, então!
[1] FIORIN, José Luiz. Linguagem e Ideologia. São Paulo: Ática, 1988.
[2] Idem 1.
[3] Dawkins, Richard. O gene egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Por Eliseu Barreira Junior
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