Ao saber da morte do escritor gaúcho Moacyr Scliar, autor de mais de setenta livros, na manhã deste domingo (27), me lembrei de três ocasiões em que conversei com ele por e-mail. A primeira foi em junho de 2009 para uma matéria sobre a onda do politicamente correto que eu e minha colega Stephany preparávamos para um jornal laboratório do curso de Jornalismo da ECA-USP, o Claro!. Decidi falar com Scliar porque ele havia traduzido o “Dicionário do Politicamente Correto” no Brasil. Muito atencioso, ele me respondeu que preferia fazer a entrevista por e-mail. A matéria acabou ficando na gaveta durante sete meses, até que decidimos publicá-la na Sete Fios. A íntegra do bate-papo virtual, porém, continuou guardada na minha conta no Gmail. Aqui está:
Para o senhor, o que é ser politicamente correto? E qual a importância de ações politicamente corretas?
Ser politicamente correto é basicamente respeitar o outro. Na verdade, este "politicamente" não seria necessário; basta ser correto em tudo e com todos. É agir de forma ética e responsável em relação aos outros, sem preconceitos de cor, religião, etnia, ideologia, e agir da mesma maneira em relação ao meio ambiente, à comunidade, ao bairro, à cidade, ao estado, ao país.
Qual é sua opinião sobre a introdução da cultura do politicamente correto nas escolas?
Acho que é importante, se for sob a forma de respeito aos direitos humanos. As pessoas têm direitos: à liberdade de expressão, à prática de suas crenças, à privacidade.
Acho que é importante, se for sob a forma de respeito aos direitos humanos. As pessoas têm direitos: à liberdade de expressão, à prática de suas crenças, à privacidade.
O senhor acredita que ensinar um comportamento politicamente correto é dever das escolas ou dos pais?
De ambos.
De ambos.
Qual é a importância do politicamente correto para a formação cultural de uma criança (e para a sociedade)? O ensino do que é politicamente correto deve começar desde cedo?
São valores sem o qual a sociedade não sobrevive, e quanto mais cedo for feita a introdução a estes valores, melhor.
São valores sem o qual a sociedade não sobrevive, e quanto mais cedo for feita a introdução a estes valores, melhor.
O que o senhor acha de cartilhas adotadas por algumas escolas que dizem que músicas como "Atirei o pau no gato" devem ser mudadas para "Não atirei o pau no gato"? Essas cartilhas vão contra a liberdade de expressão? Elas são eficientes?
É preciso bom senso e até sabedoria para valorizar aquilo que realmente é importante: o preconceito racial, por exemplo, ou o preconceito de gênero, ou de classe social. Isso resultará numa escala de prioridades, diferenciando o que é mais importante do que é menos importante. Escala de prioridades significa que algumas coisas são mais importantes e urgentes. Por exemplo, o neonazismo, que chega ao crime, tem de ser combatido com urgência.
As escolas e os pais brasileiros estão preparados para ensinar a cultura do politicamente correto para as crianças?
Pelo que conheço, acredito que muitas escolas já estão, sim, preparadas para isso e já vi belas experiências nesta área.
Voltei a trocar e-mails com Moacyr em novembro de 2009. Na ocasião, estávamos preparando para a Sete Fios um especial sobre os vinte anos da Queda do Muro de Berlim. Mais uma vez, ele respondeu às minhas duas perguntas prontamente:
É preciso bom senso e até sabedoria para valorizar aquilo que realmente é importante: o preconceito racial, por exemplo, ou o preconceito de gênero, ou de classe social. Isso resultará numa escala de prioridades, diferenciando o que é mais importante do que é menos importante. Escala de prioridades significa que algumas coisas são mais importantes e urgentes. Por exemplo, o neonazismo, que chega ao crime, tem de ser combatido com urgência.
As escolas e os pais brasileiros estão preparados para ensinar a cultura do politicamente correto para as crianças?
Pelo que conheço, acredito que muitas escolas já estão, sim, preparadas para isso e já vi belas experiências nesta área.
Voltei a trocar e-mails com Moacyr em novembro de 2009. Na ocasião, estávamos preparando para a Sete Fios um especial sobre os vinte anos da Queda do Muro de Berlim. Mais uma vez, ele respondeu às minhas duas perguntas prontamente:
Quantos anos o senhor tinha quando o muro caiu, o que estava fazendo e onde estava?
Eu tinha 52 anos, estava em casa escrevendo e vi as notícias sobre o acontecido. Para minha geração, que militou ativamente na esquerda comunista, aquilo foi a gota d'água, o ápice da desilusão e uma lição importante: é preciso pensar com a própria cabeça.
Eu tinha 52 anos, estava em casa escrevendo e vi as notícias sobre o acontecido. Para minha geração, que militou ativamente na esquerda comunista, aquilo foi a gota d'água, o ápice da desilusão e uma lição importante: é preciso pensar com a própria cabeça.
Vinte anos após a queda do muro, vivemos em um mundo melhor?
Em grande parte, sim. Mas é preciso não esquecer que fanatismos surgem constantemente, como decorrência de comportamentos irracionais, ilógicos.
Em outubro do ano passado, já trabalhando no site da revista Época, tive de consultar escritores e acadêmicos para saber quais seriam os principais desafios da presidenta eleita Dilma Rousseff. Não sei se Moacyr ainda se lembrava de mim. Decidi consultá-lo. Pela terceira vez, me respondeu atenciosamente:
O desafio do próximo presidente será transformar o Brasil num país leitor. Isto compreende: 1) completar a erradicação do analfabetismo, inclusive o chamado "analfabetismo funcional", pelo qual a pessoa, mesmo alfabetizada, não consegue ler e compreender um texto; 2) colocar o texto ao alcance da população, seja sob a forma de livros impressos seja sob a forma de livros eletrônicos; 3) reforçar o papel da escola na formação e motivação de leitores; 4) implementar o conceito de "famílias leitoras", da Unesco, através do qual os pais estimulam os filhos a ler.
Nunca pude, portanto, conversar com Scliar pessoalmente. Com certeza, teria sido uma experiência singular.
Por Eliseu Barreira Junior
Em grande parte, sim. Mas é preciso não esquecer que fanatismos surgem constantemente, como decorrência de comportamentos irracionais, ilógicos.
Em outubro do ano passado, já trabalhando no site da revista Época, tive de consultar escritores e acadêmicos para saber quais seriam os principais desafios da presidenta eleita Dilma Rousseff. Não sei se Moacyr ainda se lembrava de mim. Decidi consultá-lo. Pela terceira vez, me respondeu atenciosamente:
O desafio do próximo presidente será transformar o Brasil num país leitor. Isto compreende: 1) completar a erradicação do analfabetismo, inclusive o chamado "analfabetismo funcional", pelo qual a pessoa, mesmo alfabetizada, não consegue ler e compreender um texto; 2) colocar o texto ao alcance da população, seja sob a forma de livros impressos seja sob a forma de livros eletrônicos; 3) reforçar o papel da escola na formação e motivação de leitores; 4) implementar o conceito de "famílias leitoras", da Unesco, através do qual os pais estimulam os filhos a ler.
Nunca pude, portanto, conversar com Scliar pessoalmente. Com certeza, teria sido uma experiência singular.
Por Eliseu Barreira Junior
Parabéns pelo trabalho desenvolvido, enviei um e-mail para vocês. Abraços
ResponderExcluirElenay