domingo, 27 de fevereiro de 2011

Quando troquei e-mails com Moacyr Scliar

Ao saber da morte do escritor gaúcho Moacyr Scliar, autor de mais de setenta livros, na manhã deste domingo (27), me lembrei de três ocasiões em que conversei com ele por e-mail. A primeira foi em junho de 2009 para uma matéria sobre a onda do politicamente correto que eu e minha colega Stephany preparávamos para um jornal laboratório do curso de Jornalismo da ECA-USP, o Claro!. Decidi falar com Scliar porque ele havia traduzido o “Dicionário do Politicamente Correto” no Brasil. Muito atencioso, ele me respondeu que preferia fazer a entrevista por e-mail. A matéria acabou ficando na gaveta durante sete meses, até que decidimos publicá-la na Sete Fios. A íntegra do bate-papo virtual, porém, continuou guardada na minha conta no Gmail. Aqui está:

Para o senhor, o que é ser politicamente correto? E qual a importância de ações politicamente corretas?

Ser politicamente correto é basicamente respeitar o outro. Na verdade, este "politicamente" não seria necessário; basta ser correto em tudo e com todos. É agir de forma ética e responsável em relação aos outros, sem preconceitos de cor, religião, etnia, ideologia, e agir da mesma maneira em relação ao meio ambiente, à comunidade, ao bairro, à cidade, ao estado, ao país.

Qual é sua opinião sobre a introdução da cultura do politicamente correto nas escolas?
Acho que é importante, se for sob a forma de respeito aos direitos humanos. As pessoas têm direitos: à liberdade de expressão, à prática de suas crenças, à privacidade.

O senhor acredita que ensinar um comportamento politicamente correto é dever das escolas ou dos pais?
De ambos.

Qual é a importância do politicamente correto para a formação cultural de uma criança (e para a sociedade)? O ensino do que é politicamente correto deve começar desde cedo?
São valores sem o qual a sociedade não sobrevive, e quanto mais cedo for feita a introdução a estes valores, melhor.

O que o senhor acha de cartilhas adotadas por algumas escolas que dizem que músicas como "Atirei o pau no gato" devem ser mudadas para "Não atirei o pau no gato"? Essas cartilhas vão contra a liberdade de expressão? Elas são eficientes?
É preciso bom senso e até sabedoria para valorizar aquilo que realmente é importante: o preconceito racial, por exemplo, ou o preconceito de gênero, ou de classe social. Isso resultará numa escala de prioridades, diferenciando o que é mais importante do que é menos importante. Escala de prioridades significa que algumas coisas são mais importantes e urgentes. Por exemplo, o neonazismo, que chega ao crime, tem de ser combatido com urgência.

As escolas e os pais brasileiros estão preparados para ensinar a cultura do politicamente correto para as crianças?
Pelo que conheço, acredito que muitas escolas já estão, sim, preparadas para isso e já vi belas experiências nesta área.

Voltei a trocar e-mails com Moacyr em novembro de 2009. Na ocasião, estávamos preparando para a Sete Fios um especial sobre os vinte anos da Queda do Muro de Berlim. Mais uma vez, ele respondeu às minhas duas perguntas prontamente:

Quantos anos o senhor tinha quando o muro caiu, o que estava fazendo e onde estava?
Eu tinha 52 anos, estava em casa escrevendo e vi as notícias sobre o acontecido. Para minha geração, que militou ativamente na esquerda comunista, aquilo foi a gota d'água, o ápice da desilusão e uma lição importante: é preciso pensar com a própria cabeça.

Vinte anos após a queda do muro, vivemos em um mundo melhor?
Em grande parte, sim. Mas é preciso não esquecer que fanatismos surgem constantemente, como decorrência de comportamentos irracionais, ilógicos.


Em outubro do ano passado, já trabalhando no site da revista Época, tive de consultar escritores e acadêmicos para saber quais seriam os principais desafios da presidenta eleita Dilma Rousseff. Não sei se Moacyr ainda se lembrava de mim. Decidi consultá-lo. Pela terceira vez, me respondeu atenciosamente:

O desafio do próximo presidente será transformar o Brasil num país leitor. Isto compreende: 1) completar a erradicação do analfabetismo, inclusive o chamado "analfabetismo funcional", pelo qual a pessoa, mesmo alfabetizada, não consegue ler e compreender um texto; 2) colocar o texto ao alcance da população, seja sob a forma de livros impressos seja sob a forma de livros eletrônicos; 3) reforçar o papel da escola na formação e motivação de leitores; 4) implementar o conceito de "famílias leitoras", da Unesco, através do qual os pais estimulam os filhos a ler.

Nunca pude, portanto, conversar com Scliar pessoalmente. Com certeza, teria sido uma experiência singular.

Por Eliseu Barreira Junior




terça-feira, 12 de outubro de 2010

A tinta do sábio vale mais que o sangue do mártir

Começo este texto propondo um desafio aos leitores. Quando você ouve a palavra Islã, qual imagem aparece em sua mente? Para facilitar, darei algumas alternativas:

a - um homem barbudo, cujo nome é Osama bin Laden

b – uma mulher coberta por uma burqa

c - as torres do World Trade Center pegando fogo

d - a imagem da morte

e - pessoas armadas gritando palavras de ordem

f - homens-bomba

g - pessoas rezando ajoelhadas

h - mulheres com o rosto coberto por um véu

i - Barack Obama

j - George W. Bush

Agora, das palavras abaixo, qual delas você associaria diretamente ao Islamismo?

a – terrorismo

b – fundamentalismo

c - autoritarismo

d - extremismo

e - paz

f - amor

g - união

h - bem

i - mal

Dá para perceber que todas as possibilidades apresentadas para definir a religião seguida por 19,6% da população mundial – 17,4% são católicos – não passam de construções discursivas. Nesse sentido, cabe perguntar: o discurso é reflexo da realidade? Você já parou para pensar nisso? Os filósofos idealistas sempre afirmaram que a linguagem cria uma imagem do mundo, ou seja, cria a maneira como percebemos e concebemos o que está a nossa volta.

É por causa disso que podemos dizer que a linguagem tem influência sobre o comportamento do homem. Tudo o que é dito contém na sua essência a visão de mundo de alguém, “um sistema de valores, isto é, estereótipos dos comportamentos humanos que são valorizados positiva ou negativamente. Ele veicula os tabus comportamentais. A sociedade transmite aos indivíduos – com a linguagem e graças a ela – certos estereótipos, que determinam certos comportamentos. Esses estereótipos entranham-se de tal modo na consciência que acabam por ser considerados naturais” [1].

As perguntas que fiz acima estão carregadas de estereótipos do Islã. Se você tem em sua mente alguma das concepções que listei, provavelmente traz consigo algum tipo de preconceito com relação à religião que mais ganha adeptos no planeta atualmente. E sabe o motivo dele existir? A imprensa é, em parte, responsável por isso. Se analisarmos, por exemplo, a cobertura internacional dos principais jornais brasileiros veremos que em diversos momentos o que é islâmico vem associado a palavras com uma carga altamente negativa. Para eles, há “extremistas islâmicos”, “grupos radicais islâmicos”, “terroristas islâmicos”, “milícias fundamentalistas islâmicas”, etc. Assim, islâmico é um adjetivo que quase nunca aparece associado a algo bom.

Você pode me perguntar. Não existem terroristas islâmicos? Qual é o problema de chamá-los assim? Claro, existem. Há várias pessoas que interpretam de maneira, digamos, errada os preceitos do Alcorão. Mas a repetição reiterada desse tipo de expressão forma na cabeça de qualquer desavisado uma imagem negativa de quem professa o Islamismo. Tais palavras ajudam a reforçar os preconceitos e mal-entendidos que existem em torno do Islã. Pelo que eu saiba, nenhuma religião monoteísta é a favor de atos terroristas. O que há é uma minoria que pensa assim. Além disso, o extremismo, ao contrário do que possa parecer, não existe apenas entre os muçulmanos. Ele está presente em todas as religiões.

Segundo José Luiz Fiorin, a cada formação ideológica existente corresponde uma formação discursiva, que é um conjunto de temas e de figuras que materializa uma dada visão de mundo. “É com essa formação discursiva assimilada que o homem constrói seus discursos, que ele reage linguisticamente aos acontecimentos. Por isso, o discurso é mais o lugar da reprodução que o da criação” [2].

Dessa forma, se você associou Islã com terrorismo é porque reproduziu um discurso que assimilou. O texto de uma reportagem de jornal que faz questão de escrever “terrorista islâmico” é um discurso desse tipo.

Isso nos remete ao que Richard Dawkins [3], um dos mais importantes intelectuais da atualidade, usou para explicar a crença em Deus: os memes. Memes são unidades de transmissão cultural. São melodias, idéias, slogans, palavras, as modas no vestuário, as maneiras de se construir algo. Eles saltam de cérebro para cérebro através de um processo de imitação. Mas não é qualquer idéia que pode se propagar. Dawkins explica que a ideia de Deus tem um elevado grau de sobrevivência porque possui um grande apelo psicológico, fornece uma explicação superficialmente plausível para questões profundas e perturbadoras a respeito da existência e sugere que injustiças deste mundo podem ser compensadas num próximo.

Um meme pode se propagar de diversas maneiras, inclusive pelo discurso jornalístico. É possível afirmar que o principal elemento que dá força ao meme que diz que todo muçulmano é terrorista é a repetição de expressões como “fundamentalista islâmico”.

Aliás, Dawkins nos mostra que também são memes que influenciam o comportamento de um terrorista, a saber:

1) Você sobreviverá à sua própria morte.

2) Se você morrer como mártir, vai para uma parte do paraíso especialmente maravilhosa, onde se regalará com 72 virgens.

Com isso, podemos perceber que somos controlados por memes. Eles agem tanto no comportamento dos fundamentalistas que morrem em nome de Alá, quanto nas expressões usadas pelos jornalistas em seus textos.

Dawkins conclui em seu livro “O gene egoísta”, de maneira bastante esperançosa, que os seres humanos tem o poder de se revoltar contra os memes que atuam em seus cérebros. Mas parece difícil acreditar nessa possibilidade. As idéias (memes) propagadas são tão fortes que já cheguei a ler num lugar, que não me lembro agora, que “os muçulmanos são seres irracionais que precisam ser domesticados e, assim, facilmente exterminados”. Veja como uma idéia é poderosa. Ela está até agora na minha cabeça. Como controlá-la, é o maior problema.

O primeiro passo a ser dado pela imprensa é repensar o uso de expressões que conspiram silenciosamente para a propagação de ideias negativas sobre o Islamismo. O que deve ficar claro é que nem todo muçulmano é terrorista. O Islã não nega o Judaísmo nem o Cristianismo, mas se considera a religião que completa as mensagens anteriores a ela e sela o período de profecias numa síntese final.

Portanto, não podemos, através da linguagem, dar uma fisionomia islâmica ao terrorismo. Como nos lembra o dito atribuído a Maomé, “a tinta do sábio vale mais que o sangue do mártir”. Sejamos sábios, então!

[1] FIORIN, José Luiz. Linguagem e Ideologia. São Paulo: Ática, 1988.

[2] Idem 1.

[3] Dawkins, Richard. O gene egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Por Eliseu Barreira Junior

domingo, 5 de setembro de 2010

Publicidade #2

As propagandas do Google são sempre gênias. Os dois vídeos abaixo, da agência de publicidade BBH, são comerciais sobre o Google Chrome que seguem o estilo analógico do primeiro vídeo lançado, no fim do ano passado. As propagandas simulam as ações do navegador no mundo analógico e revelam como cada situação foi montada artesanalmente.

Os vídeos a seguir falam de algumas das extensões que podem ser ser baixadas para personalizar o browser...



... e da função de tradução que vem incorporada ao navegador.



O primeiro comercial, de dezembro de 2009, é sobre as funcionalidades do Google Chrome.



Por Carla Peralva

sábado, 17 de julho de 2010

Fio desconectado. Mas ainda somos Sete...

Caros leitores, até mais. Estou de saída da Sete Fios. O que me impulsionou não foi uma briga com nenhum dos membros (incrível como todos se dão bem, e continuaremos assim), não foi uma discordância sobre os rumos da Revista, não foi uma questão de ego ou inveja dos meus colegas (de profissão e publicação) e amigos (de vida pessoal).

Com certeza todo mundo já ouviu falar que, algumas vezes na nossa vida, “mudamos prioridades e buscamos novos desafios”. Se eu soubesse quem foi o autor da frase, caberia uma referência. Mas como não sei, fica a citação por ela mesma, explicando minha saída.

A frase explica, também, meu estado de espírito ao decidir encarar o projeto da Sete Fios com Ana, Carla, Eliseu, Mariane, Stephany e Tainara. Buscava fazer algo fora da faculdade que me tornasse mais maduro no jornalismo e me fizesse crescer como pessoa. Aconteceu. A Revista está aí, criada, consolidada e, acima de tudo, ambiciosa (no bom sentido do termo). Saio com a sensação de que poderia ter feito mais, mas satisfeito com aquilo que fiz.

Em meu primeiro post deste blog, disse que cada membro da Sete Fios descobriria mais significados sobre o que é ser um fio durante a consolidação da publicação. Com o pouco (mas marcante) tempo que pertenci à Revista, descobri que a essência de um fio está em ter essa ambição, esse espírito de conhecer coisas novas e ir atrás de uma boa história, seja ela contada por um ator global, um colecionador de latinhas de cerveja ou um funcionário de um estádio de futebol. E também em ter uma liberdade editorial (tanto para pautas, como para críticas ao trabalho dos colegas) invejável a qualquer veículo de comunicação.

Eu fico por aqui, agradecendo publicamente aos meus amigos que me deram a oportunidade de participar do projeto que, com certeza, me engrandeceu e me ensinou muito. E aos leitores que acompanham a publicação. Os Sete Fios, agora, se reduzem a seis, que tocarão o projeto com muita vontade de produzir um conteúdo diferenciado e de qualidade para seu público. A Revista continua com o mesmo nome e, mais que isso, com o mesmo espírito. Acompanhemos, leitores! Os meninos (O menino, só sobrou o Eliseu) e as meninas têm competência e qualidade e muito conteúdo interessante ainda virá! Obrigado e vida longa à Sete Fios!

Por Raphael Florencio

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Publicidade #1

Eu e mais alguns fios temos uma queda especial por propagandas bem feitas. Então, como a Mari resolveu trazer esse tema para o blog, resolvi continuar e publicar comerciais criativos, divertidos e inusitados que eu achar por aí.

O primeiro de hoje é do Peugeot Quiksilver 207, feito pela agência Loducca. O carro é um esportivo e um dos públicos alvo são os surfistas. Então, em vez de colocar o Cauã Reymond surfando na carroceria (não que eu ache isso ruim, ou feio, ou chato), eles resolveram se aproximar de verdade desse público. Um anúncio foi impresso em parafina, colado em uma revista sobre surf e podia ser destacado e usado para passar na prancha! O vídeo mostra todo o processo manual de impressão e o destino final da propaganda em parafina.



O próximo vídeo nem é um comercial (olha eu, mal comecei a série já estou pervertendo-a), mas o que eu chamaria de uma ação de marketing. A TAM e a agência Amén, do Uruguai, fizeram uma intervenção no Aeroporto De Carrasco em Montevidéo para trazer para dentro dele, um lugar sempre de trânsito, um belo ponto turístico. Empilhou-se um monte de bagagens e fez-se a luz. A sombra criou a imagem de um velho conhecido nosso, dá uma olhada:



Como em toda boa publicidade, o mais legal desse vídeo é ver a reação das pessoas. Sempre bom ser surpreendido.

* Atualização: como é possível perceber, o sem graça do dono desse último vídeo tirou-o do ar. Bom, a montanha de bagagem formava a sombra do Cristo Redentor e todo mundo ficava boquiaberto.

Por Carla Peralva

Revista Sete Fios

terça-feira, 4 de maio de 2010

Senta que lá vem a história

Chegamos no estádio na hora marcada. Entramos no prédio da administração e fomos recebidos pelo diretor do Pacaembu, que nos apresentou a um dos ícones da casa: o famoso Luizão. Alegre, com sorriso largo no rosto, nos cumprimentou e avisou que Flor, seu amigo, já estava vindo para o nosso bate-papo.

Nos 20 minutos que ficamos ali sentados, vimos passar algumas pessoas, inclusive, o Rivelino. O Rapha soltou um "uau, nossa é ele" e eu me contive a exclamar "ah, que legal!". Talvez se eu soubesse em detalhes que ele cresceu jogando bola em campos de várzea, que passou pelo Corinthians vestindo a camisa 10, que foi convocado para a seleção brasileira, na qual vestiu a camisa por mais de 100 vezes, e que jogou três Copas do Mundo - a começar pela que consagrou o Brasil como Tricampeão, em 1970 -, é bem provável que eu demonstrasse um entusiasmo maior. Enfim, ele estava lá para gravar um programa especial sobre o estádio para uma emissora de TV.

Foi justamente essa profusão de conteúdo na mídia a respeito do aniversário de 70 anos do Pacaembu que mais dificultou nosso trabalho. Como abordar a história sem nos tornarmos repetitivos? Como contar a relevância do local sem imitar os grandes veículos de comunicação? É, não foi fácil. Um dos nossos personagens principais já era estrela e figurava em reportagens especiais de grandes veículos de comunicação. Porém, lá estava o Luizão, prefeito do Pacaembu, ao lado de seu amigo Flor, mais uma vez cheio de boa vontade em atender outra equipe de reportagem.

Oi, tá gravando
Sentamos no banco, ligamos o gravador e pedimos que se apresentassem. Ainda com certa postura comedida diante do gravador, ambos iniciaram o diálogo. Pergunta daqui, comenta dali, e eles foram se soltando. Não valia se prender a certas datas, estavam lá há tantos anos que marcos do tipo "qual foi evento mais importante para você nesse tempo todo de trabalho?" eram uma incógnita. A resposta para indagações ao estilo dessa era sempre "ah, mas foram tantas. Faz tanto tempo", que desistimos de tentar contextualizar tudo e várias vezes nos pegávamos com cara de bobos ouvindo as milhares de pequenas histórias.

O Flor meio sem jeito, demonstrava nas expressões, o carinho pelo amigo e pelo estádio. Luizão, por sua vez, agradecia sempre que podia a casa que o acolheu desde 1969 e as pessoas com quem conviveu nesse período todo. A emoção era tanta que em uma das vezes sua voz fraquejou e seus olhos marejaram. Eu mesma fiquei balançada. Jamais imaginei que por trás de toda a suntuosidade do centro esportivo municipal havia uma faceta tão "familiar" da administração, para usar um termo do próprio Luizão.

Cheios de intimidade
Eles são conhecidos por craques do futebol, são amigos de gente graúda do meio esportivo e têm "causo" pra mais de semana. Basta dizer que ficamos praticamente duas horas ininterruptas conversando, na verdade, os ouvindo. Ficamos curiosíssimos em participar dos famosos churrascos dos funcionários, de uma das festinhas como a surpresa de aniversário feita para o Luizão que havia acontecido há poucos dias. "Vocês precisam vir em dia de festa, né, Flor? Ver a roda de conversa com o pessoal das antigas, aí sim vocês vão ver como sai história", dizia rindo com ar saudosista.

O Rapha também aproveitou para debater jogos marcantes e a situação dos times no atual campeonato com os entrevistados, praticamente um mundo estranho para mim e por isso deixo essa parte do relato para ele. O que eu pesquei é que o Flor tem uma teoria de que a cada dez anos um time do interior é campeão do Paulista. Santista, imagino que ele esteja feliz depois da vitória de domingo. Já Luizão, corinthiano, não sei dizer - só leio as manchetes de esporte e não me lembro de uma recente. Apesar da ignorância sobre o assunto, saí encantada com o estádio e determinada a comprar o álbum da Copa. Eu e meu parceiro de aventuras da vez, já que no dia do lançamento do álbum estávamos trabalhando e não pudemos comprar. Felizes e contentes, adquirimos o artefato na banca em frente ao "Paca" e demos início à coleção.

É isso? É, deve ser
No fim, nossa grande vantagem em relação aos outros jornalistas é que podíamos contar a história do modo como ela nos havia sido apresentada - recheada de emoção por parte de duas pessoas que acompanharam de perto boa parte da trajetória do estádio que completou 70 anos no dia 27 de abril. Sem retaliações por parte de alguma chefia, empolgados como focas que somos, fizemos a reportagem selecionando algumas facetas de tantas desse grande personagem da cidade de São Paulo, o Pacaembu.

Reportagem sobre os 70 anos do Pacaembu


Por Stephany Tiveron
Fotos: Gustavo Pizzo

domingo, 25 de abril de 2010

Educação que dói no bolso

Como universitária e amante da literatura (confesso neste post que compro livros compulsivamente) fiquei interessadíssima ao visitar o site Educar e Crescer e me deparar com a seguinte reportagem: “Biblioteca Básica - Dezoito educadores selecionam 204 obras essenciais para serem lidas do Ensino Infantil ao Ensino Médio”.

Antes mesmo de clicar no link para a tal “biblioteca básica” já pensei “ótimo, sempre li muito e certamente já conheço a maioria desses livros”. Ao terminar de navegar pela reportagem suspirei e disse “ok, tive uma educação 85% deficitária”.

Uma coisa interessante é que são listados livros ditos “essenciais” que deveriam ser lidos dos 2 aos 18 anos de idade, mas será que, aos olhos do público dessa faixa etária, é realmente válido ler essas indicações ou isso é apenas importante na visão dos educadores? Além disso, imaginem se fossemos comprar todos os livros indicados... Falência resumiria a situação da família.

Em primeiro lugar, qual criança ou adolescente prefere ler “Senhora” ou “Iracema”, ambos de José de Alencar, a “Harry Potter”, da J.K. Rowling? Os dois primeiros são – pelo menos em minha humilde opinião – aqueles livros que os professores de Português nos obrigam a ler (sim, a palavra é obrigar!) – para que não tiremos zero na prova. Não falo aqui da questão de qualidade dos livros, mas sobre a relação entre qualidade versus prazer.

Muitas obras – e excelentes obras – nos são pedidas nas escolas e acabamos lendo tudo sem o menor senso crítico e sem relacioná-las ao contexto histórico e literário, o que, na maioria das vezes, torna a leitura algo maçante. Pergunto-me se um adolescente de 15 anos tem maturidade necessária para encarar a “Odisséia” de Homero ou, aos 13 anos, ficar cara a cara com “Otelo”, de Shakespeare. A probabilidade de o leitor passar a odiar ou ver com maus olhos tanto a produção do autor em questão quanto à literatura como um todo acaba ficando alta simplesmente pelo fato dele não estar preparado para compreender aquilo que lhe fora cobrado.

Além disso, vale ressaltar que a “lista de livros” essenciais não é o que podemos chamar de pechincha. Utilizando como base os preços sugeridos pelas lojas virtuais das respectivas editoras, fiz um levantamento de quanto ($$) os pais teriam que abrir mão para que seus filhinhos lindos guti-gutis do coração tivessem acesso a essa educação básica: dos 10 aos 18 anos seriam gastos aproximadamente R$3701.2. Portanto, pense bem antes de tirar o atraso e ler tudo. Vale vender uns brinquinhos na pracinha perto da escola, fazer uma rifa ou arrumar um trabalho braçal, pois não é pra qualquer um colocar a mão no bolso e soltar mais de 3000 reais na compra de livros para o filhote.

Voto, para finalizar, que "Harry Potter" entre para essa lista (no Submarino, por exemplo, os 7 volumes chegam a ser vendidos por menos de 100 reais). Tal qual o bruxo, a maturidade dos jovens aumenta de acordo com a idade e com os livros da série. Não basta induzir a leitura de algo só por que é considerado clássico, é necessário que o leitor tenha vontade de ler outras e outras obras quando o primeiro livro findar.

Coloco abaixo um trecho do documentário “Harry Potter: um ano na vida de J.K. Rowling”, no qual podemos reparar os olhinhos curiosos e sedentos das crianças, adolescentes e adultos diante da possibilidade de saber o final da história de Harry Potter. Por melhor que seja o livro, por mais incrível que seja para os educadores, creio que o mais importante é fazer com que o leitor termine de ler uma página morrendo de ansiedade para começar a próxima.




Por Ana Carolina Athanásio